quarta-feira, 23 de abril de 2008

Divindade



Se restar-me o vazio de uma página em branco.

Se eu alegar que nada posso escrever.

Diga que preciso ir embora. Vou conversar com Deus.

Não importa qual. Talvez ele possa entender.

Em sua roda de luminosidade e leveza,

Darei passos pequenos, por gentileza.

É preciso ser breve. É preciso ser leve.

Perguntarei se há remédio para minha situação.

Perguntarei se posso me queixar

ou se a queixa é em vão!

Ah! Entregarei um livro com os meus poemas.

Vou procurar o remédio para controlar o tédio das poesias pequenas.

terça-feira, 22 de abril de 2008

Vou fugir


Cada detalhe que foge,
A cada instante que some,
é mais um ponto somado
ao meu encontro marcado
com a inspiração.
(mesmo sem mansidão).
Veja. Nada tem de perfeição.
Um pouco de mim quero apenas.
Quero ainda palavras pequenas
Quero só colorir meu caminho.
Veja. O poeta não é sozinho!
Ele é um fingidor de poemas,
Ele é a causa dos problemas
de quem foge da imaginação.

A valsa




Na tentativa de cantar mais lágrimas,

As bocas dançam a valsa dos apaixonados.

E para o poeta louco,de exaltada emoção,

A valsa não se completa quando termina a canção.

A dança é cansativa e as bocas dormem pouco.

E a terra tanto gira que andar exige esfoço.

Ah! O girar parece eterno. Logo virá a tontura.

Há quem se arrependa, há quem se contente,

Por não dançar com todo o amor

ou ter dançado com tanta gente.

sábado, 12 de abril de 2008

Prosa


Nesses 40 minutos de duração da minha viagem, resolvo pensar no tempo que me falta. Não o tempo que vai durar minha vida, mas o tempo que me resta para seguir pensando no que sou. Queria poder contar com a eternidade. Queria também que ela mantivesse minha conciência ativa e me presenteasse com um papel qualquer para eu rabiscar. E, se não fosse pedir muito, eu gostaria de palavras para contar qualquer história.

Não é que aqui no ônibus, bem ao lado do banco em que estou sentada, alguém toma um pedaço de papel e escreve. É uma menina nova. Assim como é novidade boa ter alguém para compartilhar desse meu envolvimento. Estou feliz por ter 40 minutos de prosa invisível.

Eu e Ela




Se não me olha, fala.

E quando fala, grita.

E se não grita, geme.

Com sua voz aflita.


Com sua voz aflita

E uma frieza torta.

Quase não diz palavras

Quando abre a porta.


Quando não abre a porta

Eu quebro a campainha

E penso que estás morta

No chão da cozinha.


Logo o chão da cozinha,

Um lugar tão frio!

É um chão tão vazio.

Então eu desconfio,

Queres ficar sozinha!


Ela está sozinha.

Eu estou descontente.

Agora ela caminha

e eu, inconsequente

quero segui-la em paz.


Só a gente entende a nossa ladainha.

No chão da cozinha. No chão da cozinha.

sábado, 5 de abril de 2008

Adoecer




Hoje a garganta inflama.
Causa: palavrões que eu disse.

Na febre do corpo eu reclamo:

Maldita seja a amidalite!


Entre as outras tão sinalizadas
Doenças dos erros humanos,

Entre os incômodos gânglios,

Entre algumas ínguas rosadas,

Nenhuma é tão grande e inchada

Quanto a amídala inflamada!


Abracei a hostil faringite.

Amoxil e um adeus à rinite!

Não ví bursite, bronquite,

meningite, sinusite reumartrite!


Mas essa não me deixava,

Era fiel. Queimava, inflamava.

Querida na infeliz situação

Querida, és minha rouquidão.


Mande lembranças à inflamação.

Diga que mudei de endereço.

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Por favor




Os meus suspiros, ele arranca.
A pele branca, ele arranha.
Brinca, com sua voz rouca.
E acha em tudo, coisa pouca.

Na minha casa quer ficar,
Acha que eu não vou notar,
Acha que eu não vou ligar,
Que é só meu modo de falar.

É só um modo de falar.
Que são os modos de falar?
Eu amo, não posso fingir.
Tu, não podes mais ouvir!
É muito baixo o meu amor.
Faça silêncio, por favor!

Mesmo que eu não esteja ai
E que não possas mais ouvir
Faça silêncio, por favor!
Pois é tão baixo o meu amor.
É tão baixo o meu amor,
que é querer muito sussurar.
É querer muito declarar
ou transfigurar-se de dor.

Ainda ama-se baixinho...Quase no silêncio!

Porém




Novo e antigo. Antigo e novo.

Eles estão mudados,

mas nós também estamos.

É só uma mudança de endereço,

mas no final é tudo novo.

Na casa da Chica só entra quem quer.

Pode entrar.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

A luz e o poeta

Buscarei muitas velas acesas,

que disponho ao lado da cama.

Ainda assim o poeta reclama:

-Quero mais luz nessas mesas!


Na luz, o pensamento vagueia.

Dormem as virgens e os santos,

junto com outros nomes tantos,

quando a chama da vela incendeia.


Todo o acender de uma chama

é mancha de luz na parede vazia.

E ainda assim o poeta dizia:

-Quero mais luz para quem ama!


Ama-se baixinho,quase no silêncio...

Boca dos anéis quebrados


Quando cai a madrugada,

apagam-se as luzes vizinhas.

Eu me encontro aqui sozinha.

Não.Das linhas acompanhada!



Enquanto uma idéia caminha,

logo por outra é alcansada.

Entre os tracejados de linhas

formam-se letras borradas.



Aos poucos das alegrias,

sinto-me libertada.

E das minhas melodramias

inteiramente cercada.



Ali, escrava e protegida,

a minha prática de escrita,

Pouco divina, pouco fantástica,

não pretende ser bonita.



Eu sei, não foi abençoada.

Há muito não é benzida,

mas traz ao papel branco vida.

Só um pouco, quase nada.



E na minha sala vazia,

movem-se em cantoria

as idéias congregadas.