sexta-feira, 25 de julho de 2008

Sobrevivente




Enquanto reféns são trocados,


Algumas mãos afagam,


outras faces apanham.


É o rosto dos condenados.




É a cara pela qual barganham


É tudo uma grande surpresa.


Estamos presos na incerteza!




Muitos foram os deixados


Sem ouvir qualquer adeus.


Admito, foram abusados


Os tantos erros meus.




E junto aos teus afagados,


são levemente arranhados.


Nossos corpos já muito marcados


juntaram-se aos condenados.




É um carpe diem diário.


É o carpe diem no quarto.


Amor, amor. É somente...


O amor do qual estou farto


e admito ser sobrevivente.



(Tenho o chão nas mãos e, no meio de tantos “nós”, as mãos na consciência. Quase sem ciência ou clarividência.)

sábado, 19 de julho de 2008

Oitavo andar



Pra quê quebrar o silêncio com o bater de portas, se podemos ocultá-lo dentro deste quarto?
Naturalmente somos humanos e, humanamente imperfeitos, brigamos sem motivo.
É bom achar que conservamos o direito de sentimentalizar o mundo e viver a velha fábula de final feliz. Eu mesmo fiz muitos contos... E você foi eternizado, hora como um santo imaculado, hora como um demônio tentador.
Quando eu queria ouvir sua melodia você se trancava no quarto. Lembra?

A porta permanecia trancada por horas. Para passar as horas, eu me via no espelho a conversar com a minha matéria pálida. Tanto tempo de conversa que acabei por descobrir que sou um personagem de mim mesmo. Os personagens do espelho, muitas vezes em nada se pareciam comigo. O vento, responsável pelo balançar das minhas pesadas cortinas, quase sempre atrapalhava as horas de prosa. As cortinas esbarravam nos muitos papéis que eu deixava em cima da mesa, acabando por derrubá-los no chão. Todos os dias eu os recolhia.


Por quê eu deveria fechar a janela se o vento era tão fresco e leve? É bom sentir os cabelos se descabelando enquanto recolho os papéis do chão. Mesmo no oitavo andar o vento é fresco...é quase brisa do mar ( tão distante). Era a minha rotina forjada. Eu esperava você destrancar a porta e vir pentear meus cabelos. Mas a criatura inconsciente de sua matéria bruta e de seu espírito escondido não se adapta à rotina e ao tempo.


Ontem você não abriu a porta. O cabelo estapeando o meu rosto com a força do vento . Não era o vento leve, nem a brisa do mar distante.No corredor, que leva ao teu quarto, nenhum quadro entortado ou tapete pisado. Arrombei a porta do quarto, desculpe-me! A janela totalmente aberta, a cama bem arrumada e os livros dispostos em fila na prateleira. Nenhum sinal de presença. Não sei se você se jogou ou seguiu a brisa do mar. Ando descabelada pela casa e fecho pontualmente as janelas.

terça-feira, 8 de julho de 2008

Tudo o que importa


Não, não estamos soltos. Estamos camuflados com as atribuições da vida (sem classificações de bom ou ruim). Passos sem pressa para os que acreditam em destino. Corpos se atropelam com o medo da queda. Queremos, por vezes, medir a grandeza das coisas por espécie e em espécie. Somos mesmo muito pequenos. A nossa pequenez é uma espécie de cegueira aparentemente brilhante e conformista.

Não, não estamos soltos. Estamos presos atrás da nossa condição de ser livre. A alma está presa ao corpo e sem ele não seria resistente ou sábia. As experiências da alma acontecem na presença da carcaça que vestimos. Nossa carcaça é dura, é pele, é couro. Unicamente somos dois, corpo e alma. Assim, a solidão não nos pertence. A solidão é aparência e, essa aparente solidão mantém viva a busca pelo outro; o duplo visível.

Logo acontecem os encontros e nossa carcaça aferece-se aos outros. Oferecemos essencialmente o que não se pode medir. Segue a caminhada, talvez menos cega e mais tolerante. Não, não estamos soltos. Estamos de acordo com as verdades e mentiras que criamos. Sejamos então, livres em pensamento.

Cada palavra livremente pensada é um encontro com Deus.

terça-feira, 1 de julho de 2008

Imenso azul erverdeado




Estou aos pés do grande mar.

Face totalmente lavada de sal,

depois enxugada pelos grãos de areia.

Sinto, cheguei ao meu doce lar.

O meu doce lar é a casa da sereia.


Como que para enfeitar, a tarde aparece.

Eu espero a rainha, por mim adorada.

Peço: _Escutai meus pedidos, cantados em prece.


Veia acima




Lembro de querer calar as tolices,

para então, contar as estrelas.

Lembro de me perder olhando-as

manipular os caminhos, as crendices...


Quando você me faz lembrar

eu tento não fraquejar

E esquecer o formigar ( de pernas).


Sei, não é causa de querer

Tampouco é caso de sofrer.

Por isso não cabe mais gritar

Ou relutar, me debater...


Se alguém perguntar sobre as mentiras?

Sempre muito bem guardadas!Obrigada.

Vivem tranqüilas, veia acima do coração.

Entre uma artéria roubada, Entre a raiva e a solidão.

( Mas não pergunte onde enfiei o perdão.)