O nosso retrato está molhado.
No teu rosto um grande borrão.
O papel sofre as penas calado,
desfazendo-se em minha mão.
Segurando mais uma lembrança,
os meus dedos exigem cuidado.
É o único retrato dos meus tempos de criança. O tempo não quer mais fotografias E os acontecimentos registram-se na memória. Às vezes são lembranças vazias Que lutam contra o rumo da história. Eu ainda quero descobrir a maneira Adequada pra secar esse retrato E não vê-lo perecer entre meus dedos. Quero lembranças, andanças e fatos. Quero o registro de nossa existência Do lado esquerdo da minha cama. Perto da janela pequena, mas dotada de luminescência. É o pouco que se espera pelo muito que se ama. Não posso restaurar com secadores de cabelo As relações fora de foco, as distorções e borrões, A falta de zelo... A falta de apego. A falta. Ainda quero encontrar a maneira Adequada pra secar este retrato Quero lembranças de nossa existência Do lado esquerdo da minha cama Pois é o que se espera pelo muito que se ama.