sábado, 19 de julho de 2008

Oitavo andar



Pra quê quebrar o silêncio com o bater de portas, se podemos ocultá-lo dentro deste quarto?
Naturalmente somos humanos e, humanamente imperfeitos, brigamos sem motivo.
É bom achar que conservamos o direito de sentimentalizar o mundo e viver a velha fábula de final feliz. Eu mesmo fiz muitos contos... E você foi eternizado, hora como um santo imaculado, hora como um demônio tentador.
Quando eu queria ouvir sua melodia você se trancava no quarto. Lembra?

A porta permanecia trancada por horas. Para passar as horas, eu me via no espelho a conversar com a minha matéria pálida. Tanto tempo de conversa que acabei por descobrir que sou um personagem de mim mesmo. Os personagens do espelho, muitas vezes em nada se pareciam comigo. O vento, responsável pelo balançar das minhas pesadas cortinas, quase sempre atrapalhava as horas de prosa. As cortinas esbarravam nos muitos papéis que eu deixava em cima da mesa, acabando por derrubá-los no chão. Todos os dias eu os recolhia.


Por quê eu deveria fechar a janela se o vento era tão fresco e leve? É bom sentir os cabelos se descabelando enquanto recolho os papéis do chão. Mesmo no oitavo andar o vento é fresco...é quase brisa do mar ( tão distante). Era a minha rotina forjada. Eu esperava você destrancar a porta e vir pentear meus cabelos. Mas a criatura inconsciente de sua matéria bruta e de seu espírito escondido não se adapta à rotina e ao tempo.


Ontem você não abriu a porta. O cabelo estapeando o meu rosto com a força do vento . Não era o vento leve, nem a brisa do mar distante.No corredor, que leva ao teu quarto, nenhum quadro entortado ou tapete pisado. Arrombei a porta do quarto, desculpe-me! A janela totalmente aberta, a cama bem arrumada e os livros dispostos em fila na prateleira. Nenhum sinal de presença. Não sei se você se jogou ou seguiu a brisa do mar. Ando descabelada pela casa e fecho pontualmente as janelas.

Um comentário:

Fred F. disse...

Consigo imaginar esse post como uma cena. Você fazendo a mulher(pensativa) se olhando no espelho, catando os papeis no chão, sentindo a brisa mexendo suavimente seus cabelos e depois você andando pela casa descabelada fechando as janelas com uma cara tranquila porem desconfiada.

Muito bom

PS: Uma pergunta, Vc mora no oitavo andar?